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Acordar para a vida

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Sinopse

Adélia nasceu em Boa Nova, Bahia, onde teve uma infância cheia de boas recordações e brincadeiras que aconteciam nas folgas do trabalho com os pais e irmãos na roça. Veio para São Paulo com 22 anos para acompanhar o marido e fez sua vida aqui. Trabalhou em casa de família, morou em diversos lugares e passou por uma enchente que foi "o maior desespero de sua vida". Hoje, tem seu próprio negócio: trabalha como doceira, fazendo chocolates. E mora no apartamento conquistado por meio do programa Minha Casa Minha Vida, onde considera que suas condições de moradia melhoraram cem por cento. Um dos seus maiores desejos é terminar de pagar o apartamento e pegar a escritura, para que suas filhas estejam amparadas quando ela já não estiver presente.

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História

Adélia de Jesus Almeida, nasci em Boa Nova, Bahia, no dia oito de maio de 1960.

Ah, da minha infância eu tenho assim boas lembranças, não da cidade mesmo, que eu morava no sítio, mas eu tenho boas lembranças. Por mais de ser uma vida sacrificada, mas eu tenho muitas recordações que hoje eu falo: “Naquele tempo, a gente era feliz e não sabia.”

Olha, a gente trabalhava. Na verdade, a gente começou a trabalhar na roça antes dos oito anos. O meu pai era muito rígido com a gente. A gente trabalhava muito, mas a gente brincava. A gente brincava de roda, os finais de semana a gente ia pro rio tomar banho de cachoeira, pescar, fazer piquenique em cima dos lajedos. Então, era uma vida muito gostosa. Lá a gente pescava, a gente pegava os peixes, a gente fazia as comidinha, brincava de boneca em cima das pedras, fazia batizado das bonecas, fazia casamento. Assim, o dia a d...

Adélia de Jesus Almeida, nasci em Boa Nova, Bahia, no dia oito de maio de 1960.

Ah, da minha infância eu tenho assim boas lembranças, não da cidade mesmo, que eu morava no sítio, mas eu tenho boas lembranças. Por mais de ser uma vida sacrificada, mas eu tenho muitas recordações que hoje eu falo: “Naquele tempo, a gente era feliz e não sabia.”

Olha, a gente trabalhava. Na verdade, a gente começou a trabalhar na roça antes dos oito anos. O meu pai era muito rígido com a gente. A gente trabalhava muito, mas a gente brincava. A gente brincava de roda, os finais de semana a gente ia pro rio tomar banho de cachoeira, pescar, fazer piquenique em cima dos lajedos. Então, era uma vida muito gostosa. Lá a gente pescava, a gente pegava os peixes, a gente fazia as comidinha, brincava de boneca em cima das pedras, fazia batizado das bonecas, fazia casamento. Assim, o dia a dia, meu pai viajava, aí deixava eu de castigo tomando conta dos trabalhador e eu ficava. Mas no final de semana a gente tinha a liberdade pra viver a vida da gente tranquila. Graças a Deus, eu não tenho o que reclamar da minha infância.

Morei na Bahia até 21 anos. Aí, com 21 anos eu me casei, aí... Vinte e dois anos, porque com 21 anos me casei, aí fiquei lá um ano. Aí, vim pra aqui pra São Paulo, fiquei um ano aqui. Aí, um ano e cinco meses, fui embora pra Bahia, fiquei mais dois anos lá, aí voltei pra aqui, aí não fui mais. Fiquei 17 anos sem ir lá passear. Com 17 anos aí eu fui passear. Aí, depois disso eu já fui duas, três vezes já. Porque ele [meu marido] foi criado aqui, ele veio pra aqui ele era pequeno, ele foi criado aqui. Aí, ele foi prá lá, a gente ficou noivo, casamos, só que ele não conseguia se adaptar lá. Aí, ele veio pra cá, aí eu o acompanhei.

Ah, eu achei muito diferente. A vida diferente assim, cheguei aqui, eu com a menina pequena, não tinha quem cuidasse pra mim trabalhar. Eu tô acostumada a trabalhar. Aí, pra mim já foi um ponto chave de eu não me adaptar. Amanhecia o dia, arrumava a casa, ficava. Naquele tempo não tinha assim, aquele incentivo de procurar alguma coisa pra fazer em casa. Eu achava que trabalhar era só sair pra trabalhar fora e não é, né? Eu vim aprender isso depois que ele foi embora, que eu vim acordar pra vida.

Hoje eu agradeço a Deus, porque talvez se eu tivesse ficado com ele, hoje eu não era quem eu sou, entendeu? Acordar pra vida é você saber que você tem capacidade pra conseguir o melhor. É só você lutar, que espaço tem pra todo mundo. Só falta disposição e isso é o que não falta pra mim, é disposição. Não foi fácil, mas graças a Deus eu consegui criar, estudar a mais velha estudou, fez faculdade. As outras duas não chegaram a esse ponto porque são especiais, mas desde pequenininha que sempre frequentaram a escola. Eu trabalhei 12 anos e 11 meses numa casa de família. Foi meu pai, minha mãe, meus irmãos, foi essa família que até hoje eu considero a mulher como minha mãe, porque eu saí da casa dela, mas a gente continuou amiga. Então, foram eles que me ajudaram a criar meus filhos, era ela que participava da minha história, do meu sofrimento, da minha luta. Saí porque eu já enjoei, resolvi partir, saí. Agora, eu sou doceira. Trabalho com chocolate.

Eu vim direto pra São Bernardo. Mudei pra vários bairro, mas em São Bernardo. O último lugar, no Jardim Represa. Lá era bom, só era longe das coisas. Era bem distante de São Bernardo, e eu trabalhava no Planalto. Então, era muito longe pra poder vim trabalhar, tinha que tomar duas conduções. Aí, foi onde minha filha fazia faculdade, aí eu tinha que esperar ela chegar pra poder ficar com as meninas. Então, era muito difícil. Então, tava muito cansativo e aí ela falou: “Mãe, vamos ver se nós arrumamos uma pessoa pra ficar aqui e a senhora vai ficar lá comigo, até ver se eu termino a faculdade, o que eu posso fazer”. Aí: “Tá bom”. Aí, foi onde que eu vim pra aqui pro Oleoduto.

Por que qual foi o interesse dela vir pra aqui? Porque sempre ela pensou em ter o canto dela, e trabalhar pra comprar uma casa é difícil. Não é difícil pra gente pagar, porque se a gente tem força de vontade a gente consegue. O difícil é conseguir o financiamento. Porque tem que ter uma renda limitada. Se aquela renda não bater, não consegue o financiamento, entendeu? Pelo menos aqui em São Bernardo é assim. Então, aí o objetivo dela era o quê? Ter o canto dela morar. Ela falou assim: “Mãe, eu não quero esperar ficar velha pra mim ter o meu canto de eu morar. Eu quero conseguir o meu objetivo mais cedo”. Tudo bem, eu dei apoio pra ela, “Mas como que tu vai comprar?”, ela falou: “Eu dou um jeito, eu dou um jeito”. Aí, ela tinha uns trocadinhos junto, porque ela fazia faculdade e ela era bolsista da prefeitura. Então, eu pagava a faculdade e quando aquele dinheirinho saía, ela pagava aquilo que devia e o restinho ela guardava, entendeu? Então, quando chegou a possibilidade de comprar esse barraco, ela tinha o dinheiro. Ela falou assim: “Mãe, eu tenho o dinheiro. Só falta cem reais”, falei: “Se é cem reais, eu te arrumo”. Aí, ela conseguiu comprar o barraquinho dela. Aí, eu vim ficar com ela. Eu eu vim ficar com ela e eu gostei do lugar. Por mais que era sacrificante, mas era perto das coisas, e só o fato de eu tá perto dela, porque é nós duas, é eu por ela, ela por mim. Aí, eu resolvi vender lá e comprar aqui. Aí, eu comprei uma casinha.

No Oleoduto eu passei poucas e boas. Vou contar uma situação que eu passei difícil. Uma semana antes tava tendo enchente em São Paulo. Eu tava no meu serviço, um dia de sábado, e tava passando aquele alagamento, aquela casa alagada, e o pessoal em cima do teto. Aí eu falei, conversando mais meu patrão, eu falei assim: “Ô seu Edvaldo, só que eu acho muito descuido a pessoa esperar chegar a um ponto desse, pra ele poder pedir socorro”. E eu não sei, naquela hora acho que Deus me ouviu, falou: “Vou te mostrar que não é descuido”. Com uma semana antes, isso foi uma semana antes. Com uma semana depois, justo num sábado, eu cheguei do serviço, que eu trabalhava no sábado, cheguei do serviço, começou a chover à noite e eu passava o córrego, passava bem na frente do barraco. O barraco da gente era em cima de um andaime dessa altura aqui assim. E aí eu falei: “Bom, até a água chegar aqui, se a água chegar pela frente, nós saímos pelo fundo. E a gente foi olhando, aquele rio foi aumentando, foi aumentando. Quando eu vi a água chegando na porta, eu falei: “Agora, é a hora de nós fugirmos, vamos sair pelos fundo”. Tinha saída pelos fundos. Quando eu cheguei, que eu abri a janela, que eu olhei, o mato tava sereno, a água, já tava tudo tomado. Aí, eu senti desespero, que eu falei: “Meu Deus do céu, e agora? Como que a gente vai sair?”. Porque nós duas era fácil de sair. E as duas meninas especial que tinha que sair com elas nas costas? Aí, bateu o desespero e eu fiquei desesperada, eu não sabia o que fazer. Não tinha um telefone pra poder pedir socorro. Só pedi socorro pra Deus. E a água subindo, aí o quarto — eram dois cômodos o barraco — o quarto começou a entrar água. Aí ela falou: “Mãe, vamos colocar as meninas em cima da mesa. Qualquer coisa nós colocamos essas meninas em cima da mesa”. E a gente ficou ali esperando, foi esperando. Aí, Deus abençoou que a chuva baixou, a água já chegou na porta da frente. O fundo ficou todo alagado. O quarto alagou. Aí, nós ficamos ali só pedindo socorro a Deus. A gente abria a janela de um lado via e aquele “marzão”, olhava do outro aquele “marzão”, e a gente ali só pedindo pra Deus. Aí, Deus ajudou que a chuva passou, aí a água foi baixando, foi baixando, baixou. Foi o maior desespero que eu passei em toda a minha vida. Foi muito difícil. Aí, depois aí a habitação veio. Chegou o projeto de fazer os apartamentos.

Hoje eu agradeço a Deus, porque hoje eu tô num lugar decente. Começa a chover, eu me preocupo com quem? Com quem tá na área de risco. Eu penso: “Meu Deus, tá passando pelo mesmo que eu já passei”. Sempre eu mais minha filha a gente fala isso, fala: “Mãe, essa noite eu não dormi preocupada com as pessoas que tá, que eu penso, só lembro do que nós já passamos e as pessoas tão passando”, mas a gente graças a Deus, hoje eu tenho o meu apartamento, ela tem o dela, com muita luta, mas a gente conseguiu. Então, nós somos vitoriosas, entendeu?

Área de lazer que não tinha, hoje tem, porque fala: “Ah, não tem uma quadra”, mas tem belos gramados. Tem o calçamento pra todo lado, não tem mais aquele negócio de pisar dentro da lama. Só pisa na lama quem quer, porque se não quiser pisar na lama não pisa. Tem água, não falta. Naquele tempo faltava água, às vezes ficava até três dias sem água. Quem tinha uma caixa tinha, quem não tinha ficava pedindo baldinho de água nas casas, pra poder passar. Muitos não tinham nem um banheiro, que eu conheci barracos que não tinham um banheiro. Imagina a situação da pessoa morar numa casa sem um banheiro? Hoje não, hoje a gente tem tudo isso. Tem uma luz decente. Antes de começar a chover, já tava faltando luz pra nós, hoje a gente tem a luz decente. Então, em tudo, falando, melhorou, tudo. Eu não digo que melhorou mais de cem por cento porque não tem condições, mas cem por cento melhorou.

Eu não tenho o que falar. A única coisa eu peço a Deus é que saia logo o projeto, saia o documento pra mim poder pagar, pra mim o dia que Deus me recolher, eu saber que minhas filhas estão arranjadas, garantido o lugar delas. Tem que sair o carnê pra gente pagar, depois que terminar de pagar aí sai a escritura. Só não paga quem não quiser, porque a gente vai pagar de acordo com a renda que tem. Então, eu acredito que tendo força de vontade, todo mundo vai conseguir pagar.

Achei legal [contar a minha história] pelo seguinte, porque eu sei que daqui a cem anos, duzentos anos, que alguém chega lá e vê minha história, vai falar: “Olha, a história da moradora do Oleoduto, olha como que foi, olha como que ela passou”. Porque às vezes a pessoa vê a gente assim hoje: “Ah, ela tá bem”, mas ninguém sabe o que a gente já passou na vida. E sempre eu falei que tinha vontade de escrever um livro, que a minha vida, se eu for contar, aqui, eu tô pulando etapa, mas se eu for contar minha vida do começo ao fim, minha vida dá um livro, entendeu? Então, achei muito bom, que um pedacinho eu sei que vai ficar gravado pra meus netos, meus bisnetos, amanhã ou depois, quando eu não tiver mais aqui, eles olhar e falar: “Olha a história da minha avó, olha o que minha avó falou, olha como minha avó falou, olha como minha avó era, olha como minha bisa era”. Então, eu acho que isso é importante.

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