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Alexandrino até no nome

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História de Elenildo Alexandrino Sobral

Autor: Museu da Pessoa

Publicado em 06/04/2014 por

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Sinopse

Pernambucano de Cabo de Santo Agostinho, Elenildo Alexandrino somaria ao Estado de São Paulo mais uma triste história de retirante, mas ele vai muito além disso. Trabalhador rural na infância, o depoente veio tentar uma vida melhor em São Bernardo do Campo/SP. Uma vez aqui, tornou-se alcoolotra, mas nunca abandonou o trabalho e a batalha por uma vida melhor. São muitos os trajetos que fez para reverter o caminho que o destino lhe apontava.

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História

Meu nome completo é Elenildo Alexandrino Sobral. Sou Pernambucano, nascido em 1963, no dia quatro de Abril, Cabo de Santo Agostinho. Eu cheguei aqui em 94, faz 20 anos que eu tô aqui. Então vou completar 51, deve ser na faixa de uns 31 anos de idade.

O que eu tenho lembrança é que não foi uma infância muito boa. A gente passava necessidade, fome, não gosto nem de lembrar. Quando meu pai morreu, eu tava com 12 anos de idade, então a gente foi cortar cana. A gente saía de madrugada pra cortar cana, duas horas, três horas da manhã. A gente andava assim numa faixa de uns três a quatro quilômetros. Saía de uma hora da manhã, chovendo, passando necessidade. Chegava no corte de cana, só andando a gente passava umas quatro horas andando de pé. Chegava lá já cansado.

 

Aí depois que min...

Meu nome completo é Elenildo Alexandrino Sobral. Sou Pernambucano, nascido em 1963, no dia quatro de Abril, Cabo de Santo Agostinho. Eu cheguei aqui em 94, faz 20 anos que eu tô aqui. Então vou completar 51, deve ser na faixa de uns 31 anos de idade.

O que eu tenho lembrança é que não foi uma infância muito boa. A gente passava necessidade, fome, não gosto nem de lembrar. Quando meu pai morreu, eu tava com 12 anos de idade, então a gente foi cortar cana. A gente saía de madrugada pra cortar cana, duas horas, três horas da manhã. A gente andava assim numa faixa de uns três a quatro quilômetros. Saía de uma hora da manhã, chovendo, passando necessidade. Chegava no corte de cana, só andando a gente passava umas quatro horas andando de pé. Chegava lá já cansado.

 

Aí depois que minha mãe começou a receber a aposentadoria do meu pai, aí minha mãe mandou a gente parar um pouco. Aí ficamo em casa só trabalhando por ali, na roça. A escola, eu parei na oitava.

 

E depois meu irmão veio aqui pra São Paulo, o mais velho, o João. Aí por um tempo ele foi lá pra Pernambuco, aí falou: “Mãe, eu vou levar uma pessoa daqui pra São Paulo”. A minha mãe disse: “Vai? Qual?”, “Eu vou levar o Una”, que sou eu. Eu fiquei muito alegre de conhecer São Paulo. Qual nordestino que não quer conhecer São Paulo? Mesmo que seja ruim, mas ele quer conhecer, sair daquela roça. Aí eu fiquei muito alegre, disse: “Vou”. Cheguemo, ele me trouxe pra cá. Não vou dizer que passei vida boa.

Eu era completamente sozinho. Meu irmão me trouxe pra aqui, aí eu comecei a entrar no alcoolismo. Gastei tudo com bebida, mas trabalhava, né? Aí eu comecei a conhecer a Maria, a minha esposa, ela é evangélica. Meu irmão foi criando raiva de mim, expulsou-me de casa. Já tinha engravidado naquela época, fiz uma doidice, engravidei a Maria. Eu sem casa, ela sem casa, aquele verdadeiro sofrimento. com o tempo arrumei um serviço numa obra, em São Paulo. Aí foi que Deus iluminou nossa vida. Aí fui e arrumei um barraquinho na Vila São José. Daquilo ali eu fui arrumando a minha vida, mais ela. Aí daquela firma que eu trabalhava, eu saí de lá, comprei um terreno na favela do Oleoduto.

Um matão. Aí comprei as madeira velha lá e comecei a construir. Disse: “Maria, agora nós temos nosso lar”. Fomo lá, construímo. O esgoto passava uns quatro metro assim. Quando dava enchente, amiga, era aquele sofrimento.

 

Os povo de cima sujava, metia guarda roupa velho, cama, tudo, sofá. Aí quando enchente vinha, caía tudo pra minha casa. As minhas criança, eu saía agoniado, meia noite, uma hora da manhã. Eu alcoolizado, bêbado. Oxe, tinha dia que a água dava quase um metro assim. Quando ela vinha, vinha quebrando cerca, vinha quebrando com tudo. Eu não sei como não morria. Aí foi quando depois nós ganhemos os apartamento, aí melhorou mais, né? Eu só senti que foi bom pra nós. Porque eu acho assim, que o apartamento é nosso. Eu quero melhoria pras minha criança, é ou não é? Um estudo digno, uma moradia digna. Eu gostei da moradia que o prefeito deu.

Eu gostei da mudança do condomínio, principalmente meus filho tá morando numa moradia digna. Quando eu saio, eu não fico pensando neles. Porque quando eu morava na favela, no alojamento, ficava pensando, né, vai acontecer coisa ruim. Mas quando eu saio eu fico com a minha alma livre, assim. Eu digo: “Meu Deus do céu, minha família tá morando numa moradia que só Deus quis me dar”. Porque a gente não, quem ia pensar que a gente ia morar num apartamento ali? E vai ter melhoria ainda, mais melhor.

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