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Moro no apartamento

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História de Nilza Mota da Silva

Autor: Museu da Pessoa

Publicado em 10/04/2014 por Tereza Ruiz

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Sinopse

Nilza nasceu e cresceu em São Bernardo do Campo. Foi separada de seus pais aos seis anos de idade, junto com os irmãos, e criada nas Aldeias Infantis SOS. Tem boas lembranças da infância e da adolescência, mas passou por momentos difíceis quando teve que deixar o abrigo, aos 18 anos, e viver por conta própria. Enfrentou a dificuldade de encontrar um lugar para viver e a precariedade de moradias sem estrutura. Hoje, é moradora do condomínio do Jardim Silvina e está muito satisfeita com o seu apartamento. Seu maior sonho é concluir a faculdade de assistência social, que atualmente está em curso.

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História

Meu nome é Nilza Mota da Silva, moro em São Bernardo do Campo, nasci aqui mesmo.

Meus pais são mineiros. Casaram-se em Minas, eles novos, e vieram pra cá.

Quando eu cheguei aqui, nós morávamos num barraco, num morro, que eu também não sei onde é. E eu tinha quatro anos quando eu fui abandonada por eles, eu e mais quatro irmãos. Aí, nós fomos morar na Casa de Estar São Luiz, que fica ali perto do Poupatempo. É uma casa, um abrigo onde ficam crianças. Nós éramos cinco.

Meu pai trabalhava à noite na Volks e minha mãe ficava em casa. Aí, em vez de ela ficar em casa, ela saía por aí. E aí, a gente sempre chorando, chorando, chorando, sozinhos, um dia eu acho que os vizinhos resolveram fazer a denúncia, e naquele tempo era o juizado de menor, então chamavam, eles vinham. E aí, levou a gent...

Meu nome é Nilza Mota da Silva, moro em São Bernardo do Campo, nasci aqui mesmo.

Meus pais são mineiros. Casaram-se em Minas, eles novos, e vieram pra cá.

Quando eu cheguei aqui, nós morávamos num barraco, num morro, que eu também não sei onde é. E eu tinha quatro anos quando eu fui abandonada por eles, eu e mais quatro irmãos. Aí, nós fomos morar na Casa de Estar São Luiz, que fica ali perto do Poupatempo. É uma casa, um abrigo onde ficam crianças. Nós éramos cinco.

Meu pai trabalhava à noite na Volks e minha mãe ficava em casa. Aí, em vez de ela ficar em casa, ela saía por aí. E aí, a gente sempre chorando, chorando, chorando, sozinhos, um dia eu acho que os vizinhos resolveram fazer a denúncia, e naquele tempo era o juizado de menor, então chamavam, eles vinham. E aí, levou a gente pra esse abrigo. Eu fiquei lá uns meses, eu acho, e depois eu fui para as Aldeias Infantis SOS. Não sei se vocês já ouviram falar. As Aldeias Infantis SOS é um orfanato, mas não é um orfanato, porque lá são grupos de casas e o pessoal é separado, cada casa tem uma mãe que cuida, igual a uma família normal. Eu cheguei lá com cinco, seis anos, e fiquei lá até os 18.

Pra mim [minha infância] foi muito boa, porque tudo que a gente via na televisão de roupa, sapato, a gente tinha. Tinha o amor das mães, das tias que a gente chamava de mãe, brincava normal com todas as crianças da rua, de fora, tinha escola do lado. Então, assim, não sofri, não. Peguei uma mãe boa, que cuidou de mim e dos meus quatro irmãos. O bom desse orfanato é que ele não separa os irmãos. Se, por exemplo, for uma família de 12 irmãos, ficam os 12 naquela casa e a tia cuida dos 12.

Era uma casa muito boa, grande. Acho que eu nunca imaginei morar numa casa dessas, como até hoje ainda não tive uma casa dessas. Então, tinha cinco quartos, tinha o quarto das meninas, que eram três meninas em cada quarto, tinha o quarto dos meninos e tinha o quarto da tia. Tinha a sala de estar, tinha a sala de jantar, tinha dois banheiros grandes, tinha o pequeno, tinha sótão, tinha quintal, tinha jardim. [As brincadeiras] Eram corda, cirandinha, era dominó, tinha o parquinho lá dentro também, que a gente brincava muito, os balanços, escorregador. Brincava de corre cotia, cabra-cega, cobra-cega. Então, tinha muita diversidade.

Assim, todo Natal era feita uma festa, aí reuniam todas as casas, todas as crianças e tinha um salão enorme, e aí tinha um Papai Noel. E eu acreditava em Papai Noel até os 11, 12 anos. E o marco dessa história foi que a gente ficava no salão brincando, quando dava meia-noite, o Papai Noel saía e ia por os brinquedos na nossa cama. E todo ano, todo ano essa festa. Eu falei: “Vou descobrir quem é esse Papai Noel. Vou descobrir”. Que a gente nem desconfiava. Aí, foi quando eu vi, o vô se esqueceu de trocar a bota dele e era a bota do dia a dia que a gente o via com ela. Eu falei: “Caramba! O Papai Noel é o vô”. Não era o Papai Noel.

Eu dava muito trabalho, bagunçava, gostava de sair. Eu e mais umas meninas lá. Então a gente sempre ouvia: “Não vejo a hora de vocês fazerem 18 anos pra vocês saírem, pra desmamarem”. A gente pulava a cerca, ia pra forró, ia pra baile. Era baile naquele tempo. E a gente não podia ir, porque se acontecesse alguma coisa, o orfanato era responsável. Só que a gente não tava nem aí. Não ligava, dava sexta, sábado, domingo, a gente ia. Então, eles contrataram até um guarda pra ficar lá no portão e colocaram a cerca elétrica com um choque assim, leve. A gente ia pular o portão, levava o choque e voltava pra trás. O que a gente fazia? Tinha mato, era muito mato que tinha, a gente atravessava o mato e ia para o baile. E o guarda não vencia a gente, até que eles mandaram o guarda embora.

A gente tinha [obrigações]. Aprendia a lavar o banheiro, limpar a casa, o chão era de taquinho, tinha que encerar. Então, cada um tinha um serviço. Comida também, a gente tinha que aprender a fazer comida. Então, aprendi muito lá. Lá já tinha o prezinho do lado, a escola existe até hoje. Então, tinha o parquinho, tinha até a oitava série, então a gente estudava ali do lado mesmo. Você saía pelo portão e já estava na escola.

Eu não tinha [desejo de ir atrás dos meus pais], porque, assim, eu não sabia da história. Aí eu pensava: “Poxa, mas por quê? A gente tava no orfanato, por quê?”. O pessoal falava assim: “São órfãos e abandonados”. E a gente sabia que o pai e a mãe não tinham morrido, então porque era difícil entender. Depois, assim, tiveram pais que voltaram pra ver os seus filhos, mas não podiam levar. No meu caso, a gente ficava esperando, esperando, mas chegava uma hora que a gente falava: “Eu acho que se vier buscar, a gente não vai”. Porque a gente era muito bem tratado. E a gente não sabia como ia ser a vida com eles, então a gente tinha medo também de um dia eles irem buscar.

Eu sou a segunda mais velha. Tem um irmão mais velho, tem eu, tem a outra, tem a caçula e tem o rapaz. A gente era em cinco. Quer dizer, era em cinco lá, depois eu encontrei os outros cinco que eu descobri que tinha, através da internet, no ano passado.

Quando eu tinha uns 22 anos, meu irmão mais velho tinha reencontrado meu pai. E aí, ele veio atrás da gente pra conhecer, porque com 18 anos ele casou e saiu de lá do orfanato. E aí ele veio, falou pra gente que tinha reencontrado o meu pai. Eu lutei um pouco pra querer conhecer, porque, assim, eu me sentia abandonada. Porque eu sempre pensei: “Por causa dele, a família acabou”. Destruiu, porque ele bebia. Trabalhava à noite, mas chegava bêbado, batia na minha mãe, então foram os motivos que ela fez o que fez. E aí, a gente o conheceu, tem contato com ele até hoje.

[Na adolescência] eu pensava: “Meu Deus, eu vou ter que arrumar um homem e casar, pra ter uma casa, pra ter uma família, pra ter onde ficar, porque o que eu vou fazer?”. A gente não sabia fazer... A gente tinha uns cursos lá dentro de artesanato e tudo mais, mas a gente, assim, estava muito acostumada com eles mandando, dando ordem. Então, a gente não tinha aquela autonomia. E aí, eu fiz 18 anos, eu trabalhava já. Lá dentro mesmo eu trabalhava. Eu levantava quatro horas da manhã, pegava o ônibus que passava quatro e meia, eu entrava sete horas na firma, na Grow, em Piraporinha.

Eu era auxiliar de produção. Isso eu comecei com uns 15 anos na Grow. Aí eu saía, pegava o ônibus quatro e meia, ia pra firma, aí saía cinco horas, vinha para o Riacho Grande, estudava, só chegava em casa meia-noite. Então, era essa rotina. Aí, ficava cansativo, chegou uma hora que eu parei. Eu fui trabalhar em casa de família, que eles arrumavam pra gente, mas eu falava: “Não quero trabalhar em casa de família, não tenho jeito, não é isso. Eu já faço serviço de casa, então não quero. Não gosto”, mas trabalhava, tinha que trabalhar. Aí, deu 18 anos, eu tive que sair da casa e não tinha pra onde ir. Aí, tinha uma mãe lá que ela tinha sido freira num colégio de freira, ela falou: “Olha, Nilza, lá tem uma vaga pra serviços gerais. Você pode trabalhar lá e dormir lá”. Eu fui na firma, pedi a conta, eles não queriam dar, tive que pedir. E aí eu fui pra lá. Lá eu fiquei seis anos, na Avenida Paulista, no Instituto Madre Vicunha, Maria Imaculada. Tem um no Ipiranga e tem outro ali na Alameda Itu. Lá eu fiquei seis anos, só que quatro anos eu fiquei como noviça, que eles achavam que eu tinha jeito pra freira. Eu nunca achei que eu tinha, mas elas acharam (risos).

E lá eu conheci meu marido. Eu tinha 24 anos. Nesse colégio de freiras, que ele era eletricista lá. Eu o conheci lá. E lá eu o conheci, a gente foi se envolvendo, aí eu saí de lá. Aí, fui morar com ele. Eu tinha 26 pra 27; e ele, 48. Ele falou: “Eu tenho uma casa, tenho isso”. Eu doida pra sair, pra ter a minha casa, fui morar com ele, onde eu morei e não deu certo.

Nisso, eu arrumei um barraquinho. Meu pai tinha comprado um barraco aqui [no Jardim Silvina]. Todo aberto, todo desengonçado, todo sujo. Eu arrumei um pessoal pra limpar, a gente foi limpar, tiramos as madeiras. O barraco era todo aberto, todo cheio de buraco. Não tinha enchente, não tinha problema nenhum, mas era muito rato que tinha. E todo aberto, destelhado. E eu não tinha condições mínimas de arrumar as telhas. Quando eu mudei pra esse barraco, o rapaz pegou e tinha desligado a água, o dono do barraco que tinha vendido para o meu pai. Aí, eu fui conversar com ele. Ele falou: “Olha, seu pai não terminou de pagar o barraco, então não tem nem como você entrar”. Eu falei assim: “Então, você dá um tempo, que eu tô trabalhando, eu vou te pagando aos poucos por mês”. Meu pai tinha comprado por três paus e meio o barraco. Ele tinha dado um e meio, eu tive que terminar de pagar o resto. Fiquei morando, morando, morando, aí, veio o processo de urbanização. Já tinha feito um cadastro antigo.

Eu era cadastrada, só que eu não fui dessa primeira vez. Depois, veio novamente outro processo, eu fui para o alojamento. E no alojamento eu fiquei três anos, depois mais três anos no aluguel e em 2011 é que eu mudei para o apartamento.

Nossa, foi assim, muita expectativa, muita esperança, porque você via os dos outros blocos, dos outros prédios mudarem, você queria ter uma casa digna, né? E no aluguel, a casa não era minha. Então, nossa, quando eu via levantando, a gente acompanhou a obra toda, do começo até o final. E nisso, esperando, esperando, esperando esses três longos anos que nunca passavam. Eu falei: “Meu Deus, quando eu vou ter a minha casa?”. Quando foi a última reunião, que falou que a gente ia mudar, eu falei: “Eu não acredito”.

Ah, pra mim foi muita [mudança], porque eu morava no barraco, mas não sei o que acontecia, não sobrava dinheiro pra nada. E agora, já tem mais assim, sobra, e tenho ânimo pra fazer alguma coisa dentro de casa, pra sair. Eu tenho um endereço, então eu posso trazer pessoa sem ter aquela vergonha de a pessoa estar conversando com você e estar olhando aqui, olhando ali. Então, assim, pra mim, eu me sinto muito bem. Eu não tenho vergonha de falar “eu moro na favela”, mas eu moro no apartamento. Moro no apartamento.

Meu sonho é terminar a faculdade. Por enquanto, é só. Ver meus filhos formados também, que eles estudam, todos os quatro estudam. Eu tô no terceiro ano de Serviço Social. Ou eu queria ser advogada, ou nutricionista, ou assistente social. E mais assistente social, por causa do serviço que a gente faz aqui dentro. E eu cresci convivendo com assistente social, porque no orfanato tinha psicólogo, assistente social. Então, eu sempre via o trabalho e gostava.

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