Cadastre-se

[migalha-de-pão]
Monte sua Coleção Conte sua História

Histórias relacionadas

124 Cem Wilson Ferreira Garcia por
124 Alexandrino até no nome Elenildo Alexandrino Sobral por Museu da Pessoa
124 A magia do rádio Francisco Chagas do Nascimento por Museu da Pessoa
124 Moro no apartamento Nilza Mota da Silva por Museu da Pessoa
124 Uma troca defitiva Maria do Socorro Macedo por
124 Maria, uma mulher guerreira Maria Magalhães Sobral por Museu da Pessoa

Uma casa em que não entra água

Colecionar

Sinopse

Cremilde nasceu em Conceição do Coité, Bahia, em uma família grande, com 10 irmãos que diviam o mesmo quarto em camas beliche e colchões no chão. Começou a trabalhar na roça com oito anos, mas o trabalho não impediu que brincasse com os irmãos de brincadeiras típicas de uam infância comum como esconde-esconde, boneca e comidinha. Aos 13 anos precisou migrar para São Paulo por causa de uma seca que causou a falta de alimentos para todos. Em São Paulo, trabalhou principalmente em casa de família e passou por maus bocados vivendo em condições precárias até que pudesse enfim ter seu próprio apartamento. 

Minha Casa Minha Cara Minha Vida moradia Jardim Silvina São Bernardo do Campo habitação Minha Casa Minha Vida

História

Meu nome é Cremildes Lima da Silva, eu nasci no dia três do nove de 1956, em Conceição do Coité, Bahia. Conceição do Coité era uma cidade boa, bonita, uma cidade pequena, mas era bem bonitinha. Tinha mercado, tinha bastante loja.

Meu pai comprou um terreno, nós fomos trabalhar na roça. Com a idade de oito anos, eu já trabalhava plantando mandioca, feijão, milho. Plantava de tudo lá: melancia, abóbora. Bastante coisa a gente plantava lá.

E sobrava tempo pra brincar. Nós brincávamos de esconde-esconde, de boneca, cortava aquele mato, fazia comidinha para as bonecas com mato. A casa era de barro. Era de barro, coberta de telha por cima. Nós somos dez irmãos. Colocava o colchão no chão, aí dormia no chão, porque os quartos não cabiam cama, por as camas tudo, pra dez irmãos.

Eu vim pra São...

Meu nome é Cremildes Lima da Silva, eu nasci no dia três do nove de 1956, em Conceição do Coité, Bahia. Conceição do Coité era uma cidade boa, bonita, uma cidade pequena, mas era bem bonitinha. Tinha mercado, tinha bastante loja.

Meu pai comprou um terreno, nós fomos trabalhar na roça. Com a idade de oito anos, eu já trabalhava plantando mandioca, feijão, milho. Plantava de tudo lá: melancia, abóbora. Bastante coisa a gente plantava lá.

E sobrava tempo pra brincar. Nós brincávamos de esconde-esconde, de boneca, cortava aquele mato, fazia comidinha para as bonecas com mato. A casa era de barro. Era de barro, coberta de telha por cima. Nós somos dez irmãos. Colocava o colchão no chão, aí dormia no chão, porque os quartos não cabiam cama, por as camas tudo, pra dez irmãos.

Eu vim pra São Paulo com 13 anos, porque lá a gente trabalhava na roça, aí teve uma seca, aí não tinha condições do meu pai sustentar a gente tudo. Aí, minha prima veio daqui de São Paulo, aí tinha uma senhora que tava precisando de uma mocinha pra trabalhar na casa dela, e minha prima me levou, me trouxe pra São Paulo. Eu comecei a trabalhar com a idade de 13 anos em casa de família. Era na Santa Cruz, na Vergueiro, São Paulo. Eu morava no emprego e lavava a louça, lavava a roupa, limpava a casa. Minha patroa era já de idade, ela adoeceu e faleceu. Depois que ela faleceu, eu saí da casa dela, fui trabalhar em outras casas.

Fim de semana, eu ia pra casa da minha prima, de lá a gente ia para o Museu do Ipiranga passear lá. Levava um toca-discos pequeno, daqueles pequenos, vitrola, que chamava naquela época. Aí, nós colocávamos debaixo das árvores, ficava lá passando música. É uma cidade muito grande, muito bonita. Eu falei: “É muito bonita essa cidade”. Gostei muito daqui.

Depois disso, minha prima comprou um barraco e me convidou pra morar com ela. Aí, eu fui morar com ela nesse barraco. Eu comecei a trabalhar numa fábrica chamada Trorion, aqui em Diadema. O barraco era na Vila São José, ali perto da... Era na Naval. Na favela Naval. Aí, ela arrumou um marido, foi morar com ele, um namorado, foi morar com ele. Aí, eu peguei, aluguei uma casinha e fui morar sozinha. Aí trabalhava na Trorion, depois passei um ano na Trorion, aí, saí da Trorion. Aí, fui trabalhar em casa de família outra vez.

A Naval quando chovia tinha muita lama, tinha muitos barracos. E o barraco onde nós morávamos era sobradinho, era embaixo, construído embaixo de tábua, de madeira, e em cima. A gente morava em cima, embaixo morava outra pessoa. Deu enchente lá. Enchia tudo, né? Enchia tudo lá na Naval. Quando enchia, a gente ficava dentro tirando a água e esperando baixar a água. Depois disso, eu fiz um barraco na Jesus de Nazaré. Aí tinha um barranco grande, eu peguei, tava dentro do barraco, aí, os vizinhos gritando pra eu sair de dentro do barraco, que tava “esbarrancando”. Aí, eu saí pra fora. Eu pensava que era brincadeira dos vizinhos, que eles estavam mandando sair de dentro. Quando eu saí pra fora, o barraco “esbarrancou”, derrubou o barraco, tinha um arame assim na frente. Eu ainda corri pra sair de dentro do barraco, bati a cara no arame, cortou assim um pouquinho, o bombeiro veio, me levou para o pronto socorro. Ah, eu pensava em tanta coisa, pensava que, sei lá, tinha medo de morrer na enchente. Aí, eu fiquei sem moradia.

As minhas coisas foram tudo no barranco. “Esbarrancou”, ficou tudo lá. Perdi tudo. Bom, a gente fervia as roupas, lavava tudo direitinho. O que dava pra aproveitar, a gente aproveitava; o que não dava, não podia fazer nada. O colchão a gente colocava no sol. Não dava pra lavar. A igreja ajudava, dava cesta básica. A habitação levou colchão pra gente, pra mim. Levou colchão, levou cobertor, uma cesta básica. Aí, fui recuperando aos poucos.

Aí, eu fiz outro barraco. Nesse que eu fiz agora, estalava, tava querendo cair, aí a Defesa Civil veio e deu auxílio aluguel pra mim. Mudei. Aí fui morar de aluguel, a prefeitura pagava o aluguel pra mim. Daí eu vim morar aqui no apartamento aqui.

É porque há cinco anos já a prefeitura pagava o aluguel, aí a habitação ligou pra mim perguntando se... Tinha um apartamento vazio, perguntou se eu queria, aí eu falei que queria. Eles marcaram o dia pra poder mostrar o apartamento. Eles me trouxeram aqui pro apartamento, mostraram, aí perguntaram se eu gostei, eu falei que tinha gostado, aí me mudei pra cá. Ah, eu senti muito alegre, viu, quando eu vi o apartamento bonitinho, arrumadinho. Eu fiquei muito contente. É bonitinho, todo arrumadinho, tem dois quartos, sala, cozinha, lavanderia, banheiro. Pus sofá, pus a cama, pus o guarda-roupa. Agora falta eu comprar o armário, porque lá onde morava de aluguel não cabia armário, aí eu peguei e vendi o meu armário, porque lá não cabia, era pequeno. Agora, eu vou comprar armário. Vou comprar o armário e a máquina de lavar, que faltam.

Ah, mudou totalmente a minha vida. A minha vida tá melhor. Eu moro numa casa que não entra água, num apartamento que não entra água, então a minha vida mudou muito. Vai fazer três meses dia 14 agora, de março. Acabei de entrar. Moramos eu e minha neta, que eu tenho um filho também. A minha neta mora comigo, ela tem 13 anos. Aí, ela mora comigo pra fazer companhia pra mim.

Hoje eu trabalho de diarista. Todo dia na semana eu tenho casa pra trabalhar. Tô mandando currículo para as firmas, pra eu trabalhar em firma. Preferiria trabalhar mais registrada, carteira registrada, porque, aí, quando eu for me aposentar... Eu tô pagando o carnê. Já tenho dez anos pagos, que eu pago o carnê do INSS. Então, registrada era melhor também porque já ajudava. Quando eu for me aposentar, aí, já contribuiria os 15 anos pagos.

Meus sonhos hoje são pagar o apartamento e receber os documentos do apartamento. Não sei quando vai ser meu. A habitação que vai saber o dia certo de entregar o documento do apartamento. 

Ver mais