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Uma mãe especial

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História de Eunice de Jesus Silva

Autor:

Publicado em 06/04/2014 por

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Sinopse

Eunice saiu da Bahia aos 11 anos e já chegou em São Bernardo do Campo/SP trabalhando. Com quase 20 anos de idade, deu vontade de voltar ao seu estado de origem, pois queria rever os pais. Foi assim que conheceu o marido, casou e teve dois filhos com necessidades especiais. O marido não entendeu a situação de deficiência dos filhos e Eunice decidiu se virar sozinha, grávida do terceiro filho. Regressou a São Paulo acompanhada de duas crianças com deficiência para procurar auxílio médico e atendimento especializado. Guerreira e precisa como a mãe, Eunice trabalhou como catadora e depois como auxiliar de advocacia, conseguindo auxílio do Governo para os filhos especiais. Depois de enfrentar violências extremas, relata como venceu. Hoje tem uma residência e uma vida mais digna, mas ainda tem o sonho de melhorar sua moradia. 

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História

Meu nome é Eunice de Jesus Silva, eu nasci no estado da Bahia, na cidade de Conceição do Coité. Meio que estranho mas é Conceição do Coité, Bahia. A data do meu nascimento é dois de agosto de 62. Vivi lá até uns 11 anos de idade só. Meu pai, ele trabalhava com gado, agropecuária, né? De carpir terra e criava vaca, criava bois e minha mãe lidava mais com plantação, com a plantação da mandioca, do feijão. Somos em 13, precisávamos ajudar a plantar feijão, plantar o milho, plantar a mandioca, pegava a semente pra colocar ali no chão pra gente plantar. Ajudava o meu pai com oito pra nove anos. Não, não sobrava tempo pra brincar (Pausa). Nós não tínhamos tempo pra brincar para trabalhar, era pra ajudar nossos pais.

Eu vim pra São Paulo com 11 pra 12 anos com a minha tia, porque l&a...

Meu nome é Eunice de Jesus Silva, eu nasci no estado da Bahia, na cidade de Conceição do Coité. Meio que estranho mas é Conceição do Coité, Bahia. A data do meu nascimento é dois de agosto de 62. Vivi lá até uns 11 anos de idade só. Meu pai, ele trabalhava com gado, agropecuária, né? De carpir terra e criava vaca, criava bois e minha mãe lidava mais com plantação, com a plantação da mandioca, do feijão. Somos em 13, precisávamos ajudar a plantar feijão, plantar o milho, plantar a mandioca, pegava a semente pra colocar ali no chão pra gente plantar. Ajudava o meu pai com oito pra nove anos. Não, não sobrava tempo pra brincar (Pausa). Nós não tínhamos tempo pra brincar para trabalhar, era pra ajudar nossos pais.

Eu vim pra São Paulo com 11 pra 12 anos com a minha tia, porque lá não tinha trabalho, então eu vim pra cá, bem menina ainda. Aí o meu primeiro emprego foi com a Dona Noêmia, que é na Paulicéia também, eu fui ser babá com 11 anos. Ali eu fiquei até os 17 anos. Depois, dali, aos 17 anos, eu quis trabalhar em firma, conhecer um pouco mais de São Paulo. Então, eles me deram a chance de trabalhar na Polimatic, aí a Cosamber, também na Paulicéia. Com uns dois anos de empresa, entre Polimatic e Cosamber, eu dei vontade de voltar pra Bahia, voltei pra Bahia.

Fazia muitos anos que eu não via meus pais. Só que lá, quando eu cheguei na Bahia, eu fui foi arrumar um casamento. Eu não sabia que eu tinha problema de saúde, eu com o meu marido e, aí, fui tendo filhos deficientes, né? Filhos especiais. O meu marido, quando ele descobriu que meus filhos tinham problema, ele não conseguiu entender. Ele virou um alcoólatra. Um alcoólatra! E eu fui internado aqui, internando lá, mas não teve jeito, aí eu tive que assumir os filhos sozinha. Ali que eu descobri que tive filhos especiais e fiquei com aquele problema ali, sem ter condições de resolver e o problema foi se agravando e, aí, o jeito foi voltar pra São Paulo. E o lugarzinho que eu encontrei pra fazer um barraco era em cima do córrego. Era em cima do esgoto, próximo do esgoto, entendeu? E, ali, eu fiz o barraco, e aí cada vez que chovia, enchia. Cada vez que chovia enchia e destruía tudo, destruía o alimento, destruía a roupa, acabava com tudo, porque a enchente levava tudo. Aí, eu tinha que ficar colocando as crianças em cima dos fogão, dos armários, dos beliche cada vez que chovia.

 

Eu tinha que sair pra catar papelão, né, porque trabalho fixo eu não podia conseguir. Eu não podia pegar uma casa fixa, tipo assim, “eu vou trabalhar numa casa de família e ser fixo”, porque eu não podia. Porque eu tinha que fazer tratamento deles: psicólogo, psiquiatra, neuro, cardiologista. Tinha uma série de médicos que tinha que ser constante, então eu não podia me empregar, eu não tinha o direito de me empregar, porque pra empregar eu tinha que faltar. Era muito difícil. Então, eu virei uma catadora de papelão, entendeu (choro), uma catadora de papelão. Por muitos anos, por seis anos a sete anos eu fui catadora de papelão, com muita honra.

Depois eu comprei um cavalo, comprei uma carroça e, aí, eu ia com eles pra catar papel. A criança que tinha problema mais difícil, que não queria ficar sozinha em casa eu colocava atrás pra poder catar meu papelão.

Na época que eu trabalhava catando papelão, que eu tinha que deixar Leidiana sozinha. A Leidiana foi vítima de estupro e hoje, eu tinha dois filhos especiais, hoje eu tenho dois filhos e uma neta especial, porque desse estupro ela ficou grávida. E eu não tive coragem de tirar o bebê por causa do coração dela, porque ela além de ser deficiente mental, ela tem um problema no coração.

 É uma oportunidade única, alguém tá me ouvindo, porque ninguém até então nunca tinha me ouvido. É sinal de que a gente ainda tem importância, né? A gente tem importância ainda e que a gente não tá totalmente só. Você imagina pra mim ter uma filha – deficiente não, que eu não gosto de usar a palavra – especial grávida, estuprada por vários? Ninguém nunca ouviu a minha história. Dá pra você entender isso? Eu só tô me sentindo honrada...

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