Cadastre-se

[migalha-de-pão]
Monte sua Coleção Conte sua História

Histórias relacionadas

124 Cem Wilson Ferreira Garcia por
124 Vida cigana Laércio Flávio Mendes da Silva por Museu da Pessoa
124 Hoje eu tenho endereço Maria dos Anjos Soares de Souza por Museu da Pessoa
124 A espera de um lar Gilda Ferreira Garcia por
124 Depois da tempestade Minervina Marques Rocha por

Viajante

Colecionar

História de Luiz de Souza

Autor: Museu da Pessoa

Publicado em 10/04/2014 por Tereza Ruiz

Download do Depoimento Completo

Sinopse

Luiz nasceu em Maracaí, mas se mudou bem novo para São Bernardo do Campo, quando a região era ainda muito pouco urbanizada. Viajou bastante em busca de oportunidades de trabalho e melhores condições de vida, e recomeçou diversas vezes até conseguir se aposentar e assentar com a esposa e filhos no condomínio do Jardim Silvina. Hoje em dia, continua a fazer suas viajens, mas agora apenas por lazer.

moradia Minha Casa Minha Cara Minha Vida Jardim Silvina São Bernardo do Campo habitação Minha Casa Minha Vida

História

Meu nome é Luiz de Souza, nasci em Maracaí, São Paulo, dois de novembro de 1955.

Olha, eu vim de lá com seis anos de idade. E eu vim direto pra São Bernardo. A gente era quatro irmãos. Quando eu cheguei pra cá, aqui não tinha nada, era mato, não tinha nada. Eu lembro que a gente morava em casa, ali na casinha, tinha que arrancar todos os tocos da casinha, porque...  Essas ruas aí não tinham nada. A gente ir pra São Paulo, a dificuldade. Tinha um ônibus só pra ir pra São Paulo. Eu fiquei morando lá uns 15 anos, depois mudei de bairro, mudei para o Jardim Farina.

Meu pai trabalhou na firma antes, uma tal de Mercantil, não sei se você lembra, na Anchieta. Nós viemos morar com meu tio, morar com meu tio de aluguel. Depois foi indo, foi indo, mudamos de casa. [Meu pai] conseguiu um terreno, que não era bom, era cheio de eucaliptos, t...

Meu nome é Luiz de Souza, nasci em Maracaí, São Paulo, dois de novembro de 1955.

Olha, eu vim de lá com seis anos de idade. E eu vim direto pra São Bernardo. A gente era quatro irmãos. Quando eu cheguei pra cá, aqui não tinha nada, era mato, não tinha nada. Eu lembro que a gente morava em casa, ali na casinha, tinha que arrancar todos os tocos da casinha, porque...  Essas ruas aí não tinham nada. A gente ir pra São Paulo, a dificuldade. Tinha um ônibus só pra ir pra São Paulo. Eu fiquei morando lá uns 15 anos, depois mudei de bairro, mudei para o Jardim Farina.

Meu pai trabalhou na firma antes, uma tal de Mercantil, não sei se você lembra, na Anchieta. Nós viemos morar com meu tio, morar com meu tio de aluguel. Depois foi indo, foi indo, mudamos de casa. [Meu pai] conseguiu um terreno, que não era bom, era cheio de eucaliptos, teve que trabalhar o dia pra arrancar. Mas foi devagarinho, crescendo, crescendo, até conseguir uma casinha. Mas foi em 1964, por aí, essa casa.

Eu casei foi em 1969. Tô até hoje. Com a mesma mulher até hoje. Em vez que ninguém tá aí, eu tô até hoje. Sério mesmo. Eu falo mesmo. A turma fala assim: “Nossa, Luiz, tá até hoje?”. Vai fazer 34 anos de casado agora.

Em 1988, eu fui pra Minas Gerais, Teófilo Otoni. Eu fui com... Fomos eu e meus filhos, certo? Porque eu trabalhava e eu fui seguir outra vida. Quer dizer, foi bom e foi ruim, porque a cidadezinha lá é pequenininha, não tem muito serviço. Eu fui pra lá. Fiquei seis meses lá, voltei pra São Paulo. Depois de cinco anos, comecei a levantar a minha vida. Eu fiz uma loucura. Eu tinha tudinho, meus móveis, vendi tudinho pra ir embora pra lá. Cheguei lá, fiquei seis meses lá, corri, fui à Bahia, não tinha serviço, não tinha serviço nenhum, fiquei lá. Aí, voltei pra São Paulo. Aí, comecei de novo. Comecei devagarinho até subir. E devo a Deus onde estou hoje, porque lutei muito. Porque caí e levantei de novo, fui levantando. Porque tinha três filhos, é ruim demais. Digo graças a Deus porque eu levantei, consegui o meu objetivo, que eu queria me aposentar, consegui, entendeu? Eu fiz loucura, fui pra Atibaia, fui pra Contagem. Não sei se eu fui certo ou não, mas num ponto foi bom, porque eu consegui me aposentar lá.

Eu vim sozinho primeiro. Deixei os filhos lá, vim sozinho, vim pra São Bernardo. Eu trabalhei de caseiro, trabalhei quatro anos de caseiro pra manter. Naquele tempo lá, era dinheiro URV. Você lembra, né, URV? Então, eu ganhava o dinheiro lá, aí eu consegui ficar lá morando lá. Eram três irmãos, trabalhei quatro anos lá nesse sítio. Aí, consegui uma casinha pra morar. Aí começaram a vir meus filhos, veio um, vieram dois, voltou de novo. Aí, comecei de novo, comecei de baixo. Primeiro, caseiro, aí foi subindo devagarinho, entendeu?

Depois do sítio, eu fui morar em casa de aluguel também com a minha irmã. Tudo de aluguel, nada de graça, foi tudo de pagar aluguel. Com a minha irmã. Morei seis anos lá, aí eu consegui comprar uma casinha lá para o lado do Colina. Comprei uma casinha lá, fui morar lá. Fiquei lá um tempão. Aí, eu cismei de trabalhar, mexer com sítio de novo, fui pra Atibaia. Fui em fevereiro até o mês oito, Carnaval. Fiquei seis meses lá, voltei, aí a irmã dela queria ir embora pra Contagem, minha mãe foi também. Eu falei: “Eu vou, porque não pode deixar”. Eu fui morar em Contagem, onde eu aposentei. Consegui aposentar lá. Foram dois anos lutando pra aposentar.

Eu parecia cigano, fui pra vários lugar, mas eu fui na intenção de melhorar. Certo? Porque eu não tinha apoio de ninguém, de família nenhuma, era eu sozinho, e eu meus filhos. Então eu fiz essa loucura, viajei, fui embora, mudei, voltei de novo. É isso aí.

Eu morei em favela, certo? Jardim Colina. Então nós, a gente tava lá, a gente teve que sair de lá, porque lá saiu. Então, a gente pagou aluguel dois anos, que mandavam 300 paus pra pagar aluguel até conseguir... Pagamos dois anos o aluguel, 300 paus, aí a prefeitura foi e fez o apartamento aqui. Que a gente esperava que não ia sair. Porque tava nessa aí. Porque nós demoramos pouco tempo, sabe? Tem um pessoal que ficou dez anos aí pra conseguir um predinho aqui. O meu foi rapidinho, dois anos só e eu consegui o predinho. Eu consegui morar aí hoje, tô aí até hoje. Dois anos vai fazer que eu to aqui já. Meu não, é da mulher, porque tá no nome dela. Mas a gente lutou muito. Que a gente estava morando em risco, viver em risco é ruim. Aí, também viemos pra cá.

Eu lembro que morei de aluguel, fui pra lá, morar em favela. Eu tenho uma firma lá, eu fiz acordo lá com a firma, fiz acordo pra comprar a casinha, casinha meio assim, foi quatro mil que eu paguei. E tinha um rio que enchia. Enchia, sabe? Enchia, era horrível, rato. O cemitério lá na Colina, eles queimam os corpos, sabe? Quando queima, barata, tudo vai pra casa dos outros. Porque quando queima assim, é mau cheiro do rio, barata, tudo vai pra casa dos outros. Eu morei lá porque não tinha mais lugar pra eu ir, mas quando queimava coisa lá, a gente passava mal. Mau cheiro. E tinha um rio que corria, sabe? Acho que era rio Saracantan. E descia tudo para o rio. E o rio, tinha um rio assim, quando enchia, vinha pneu, tudo. Quando enchia lá, antes de piscinão lá do Farina, não tinha piscinão, então enchia. Enchia as casas tudinho, sabe? Aí, quando queimavam os corpos era o mau cheiro. Vinha muito do cemitério. E juntava inseto. Inseto passava tudinho. A gente morava lá, mas não era bom.

Olha, porque a gente tava lutando por isso aí. Porque a gente não tinha escolha, sabe? Porque a gente tava no aluguel, a prefeitura ia cortar o aluguel nosso, não ia pagar mais, então o jeito era vir pra cá. Então, nós mudamos pra lá, a prefeitura entrega tudo no chão, cru, tem que ser reformado, tudinho, mas é tudo no grosso. Melhor que aluguel, né? Que a gente pagava aluguel, ia ter que pagar aluguel depois, porque a prefeitura ia cortar nosso aluguel. Então, em vim pra aí, foi bom. Eu gostei daí, porque é melhor, pertinho, então eu gostei. Não é meu ainda, mas um dia vai ser meu ainda, se Deus quiser. Eu quero que seja meu, porque eu quero comprar

Eu tô com 57 anos já, espero viver muitos anos, porque eu sou calmo. Agora, quando eu viajo, eu “desestresso” tudinho. Porque ficar em casa não dá, eu tenho que viajar. Já fiz muitas loucuras por aí pelo Brasil. Passei muitos dias já na estrada. E eu não tenho medo, não. Viajar, eu viajo mesmo. Chega de trabalhar. Chega. Agora é só passear.

Ver mais