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Vida cigana

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Sinopse

Laércio Flávio Mendes da Silva é cigano nascido em São Bernardo do Campo. Já viajou e ainda viaja muito, mas sempre retorna ao Jardim Silvina, onde estabeleu seus negócios e possui seus melhores clientes. Deixou, junto com seu grupo, a barraca para viver em apartamento, e conta um pouco sobre essa mudança, sobre a manutenção das tradições ciganas e sobre como é ser "meio cigano, meio garron."

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História

Laércio Flávio Mendes da Silva. Nasci em São Bernardo do Campo, em 21 de dezembro de 1973.

Meus pais são de Minas. São mineiros, são lá de Montes Claros e Porteirinha.

E vieram fazer um dinheirinho, né? Fazer uma vida melhor. Viajando, vieram pra cá, estabeleceram em São Paulo, aí veio a família toda. Foi a gente que veio pra Ribeirão, de Ribeirão foi pra centro de São Paulo, aí de centro de São Paulo veio... Ah, veio pra região do ABC mesmo. Aí, paramos aqui em São Bernardo.

Eles são ciganos. A família toda. Agora, os filho também, todo mundo. Tudo cigano, a raça de tradição cigana, a lei do cigano, a língua de cigano.

Ah, morei em muitos lugares. Morei já em São Bernardo, m...

Laércio Flávio Mendes da Silva. Nasci em São Bernardo do Campo, em 21 de dezembro de 1973.

Meus pais são de Minas. São mineiros, são lá de Montes Claros e Porteirinha.

E vieram fazer um dinheirinho, né? Fazer uma vida melhor. Viajando, vieram pra cá, estabeleceram em São Paulo, aí veio a família toda. Foi a gente que veio pra Ribeirão, de Ribeirão foi pra centro de São Paulo, aí de centro de São Paulo veio... Ah, veio pra região do ABC mesmo. Aí, paramos aqui em São Bernardo.

Eles são ciganos. A família toda. Agora, os filho também, todo mundo. Tudo cigano, a raça de tradição cigana, a lei do cigano, a língua de cigano.

Ah, morei em muitos lugares. Morei já em São Bernardo, morei em Santos, já morei em Sorocaba, Itapetininga, Itaim Paulista, São Miguel Paulista, Suzano, em Itapevi, em Jandira, Ivaiporã, Paraná, Londrina, Curitiba, por aí.                                         Estou em São Bernardo, de ficar vindo e voltando, faz mais ou menos uns 10, 12 anos mais ou menos. Porque aqui é melhor de negociar e também aqui o povo é mais acolhedor, né? Aqui foi bem melhor, porque nós chegamos aqui, não tinha muita gente assim. Aí, nós chegamos, fomos fazendo amizade com a vizinhança, foi fazendo amizade, nós voltava e viajava, voltava pra cá, as turmas tratavam a gente bem. Aí, ficava assim. Os negócios nossos é tudo aqui. A gente compra relógio, vende relógio, vende celular, compra celular, vende carro, compra carro, empresta dinheiro a juros, é assim.

Ah, tenta manter o casamento entre nós, que a gente já faz o tratamento desde pequeno, né, entre nós mesmo, entre as famílias mesmo. Só pega de fora se não tiver mesmo condição mesmo, se não tiver uma mulherzinha solteira pra casar, se não tiver na hora assim, aí nós pegamos. Às vezes  alguma assim, nós combinamos o casamento. De cedo, quando cresce o rapaz toma outro rumo, quer casar com uma garrin, ou quer casar com outra cigana, aí desmancha o casamento. Mas geralmente nós fazemos casamento entre nós mesmos, já planeja desde pequeno. Pega uma filha nossa, dá pra um parente nosso, pega uma filha dele e traz pro nosso filho, pra casar. Aí, fica de troca de família, entendeu?

Se não se gostarem, aí, separa. Aí, já nem casa também, porque hoje nós tá mais atualizado. Hoje as mulher escolhe os marido, os marido escolhe as mulher. Tipo assim, se não vai dar certo de casar meu filho com a minha sobrinha, não vai casar pra não ter inimizade depois. Aí, fica assim, mas nós tentamos manter no máximo, entendeu, entre nós somente a língua de cigano, tipo casamento, tradição e cultura. O chefe é mais velho, sempre o mais velho, não tem rapaz, é porque tem que ser, que já é o mais conhecedor da vida, né? Então, o respeito é maior, pelos mais velhos.

 

A festa de Nossa Senhora Aparecida, a festa de casamento, a festa de tratar de casamento, batizado na igreja católica, o casamento nosso é um padre... Bem dizer é cigano, porque ele dá passe pros nômades que vêm… Viaja o Brasil todo fazer casamento cigano no Brasil todo. Que ele faz o casamento nosso, de cigano, entendeu? Já conhece as leis de cigano, por isso ele faz o casamento nosso. Aí, tem gente aí que faz o casamento em igreja mesmo. Vai lá, conversa com o padre, depois faz o casamento. A maioria não deixa porque a maioria dos casamento o pessoal é de menor, entendeu? A menina de 13 anos, o rapazinho de 14, 15, mas a maioria não aceita, por isso que vem esse padre que já é acostumado com a lei do cigano, faz casamento nosso.

Ah mulher, a gente não ensina [a língua] não, eles aprendem sozinho. Acho que é de tanto escutar vai aprendendo alguma coisinha, vai fala tudo. Vai falando, a menina vai aprendendo. Igual a gente conversando aqui, vai conversando. Aí, mistura um pouquinho da língua brasileira com a língua de cigano, vai aprendendo. É uma coisa mais ou menos assim.

As danças nossa é o forró mesmo. Porque tem cigano que é uma outra raça de cigano lá, que eles gosta da música tradicional cigana, que são as músicas mais tocada na língua cigana e agora o cigano brasileiro assim da nossa turma assim, gosta mais de brega, sertanejo, música bem apaixonada. Aí, nós bebemos muito, bagunça muito. As festas de cigano... Que nem nós falamos que nós somos ciganos brasileiros, porque nós somos bem da raiz brasileira. E agora tem os outros cigano sde fora de outros país, que gosta daquelas música que passa nas novela, que dança aquelas dança bonitas. Mas nossas mulheres sabem dançar também daquele jeito. Mas nós mantemos mais a tradição de brasileiro, nessas festas assim, de música assim.

Quando morre alguém da nossa família, aí a gente é acostumado, nós queimamos a barraca da pessoa que morreu com tudo dentro, entendeu? Aí, nós queimamos tudo. Se for a mulher que ficar viúva, ela tem que usar... Cortar cabelo, usar roupa preta, não casar mais. E se for homem assim geralmente faz a mesma coisa, só não veste roupa preta. Já perde tudo que tem na barraca, já arma a barraca em separado pra eles. Luxo não tem mais, que não precisa, porque já tá viúva. A não ser se a moça é nova ou o rapaz for novo, aí nós fazemos outro casamento pra ele. Agora, se for pessoa de idade, aí não precisa mais, já perde todo o luxo, não vai aquela barraca bonita, enfeitada, vai ser uma barraca mais simples, entendeu?

Aí, tinha o alojamento, aí quando meu sogro faleceu, aí nós queimamos a barraca, queimamos a barraca dele. Aí, nessa que queimamos a barraca dele, o pessoal viu pegando fogo, né, que a barraca dele era grandona, tinha oito metros e meio de comprimento. Aí, chegou bombeiro pra apagar tudo, e nós: “Não, não apaga não, porque é nossa tradição, não sei o quê”. Aí, com muito custo eles entenderam, aí não apagaram, aí deixou cair a cinza sozinha, senão eles tinham apagado. E pra nós não existe isso não, não pode. A nossa tradição é assim. Vai com tudo dentro. O que tiver novo lá, o que tiver zero, roupa, tudo, vai tudo pro fogo. Depois compra novo, né, dinheiro a gente consegue.

Então, mulher, a gente ficou acampado muito tempo aqui, antes de fazer alojamento, como eu mostrei na foto. Aí, eles falaram assim: ”Vocês saem que nós te dá um apartamento pra vocês”. Aí, pegamos essa ideia, vamos ficar na casa. Que meu sogro já teve casa também, mas como nós viajamos muito, nós não dedicamos muito na casa. Aí, como nós viemos parar aqui no prédio, como nossos maiores negócios é tudo aqui, nessa região aqui, aí, nós viemos e acostumamos mais aqui. E hoje, as nossas mulher preferem ficar no prédio do que ficar na barraca, entendeu? Aí, nós só vamos viajar tipo, se viaja um mês, dois mês, volta de novo, fica na casa mais uns cinco, seis mês. Viaja de novo, faz um dinheirinho, volta. Sempre na necessidade nós viajamos um pouco. Nossos negócios na maioria é por aqui mesmo, por isso nós estamos ficando mais tempo aqui no prédio.

Ah, mulher, no começo foi duro, porque tipo assim, acostumado a ficar no mato, ficar na barraquinha, ter aquela liberdade. Nossa casa não tem porta, não tem janela, já tem aquela liberdade de olhar o mundo. E no apartamento nós chegamos... É muito bom o apartamento, tem todo o conforto. Mas nós acostumados a viver na rua, viver no mundo, chegamos lá já abrimos todas janelas, as portas tudo pra entrar aquele ar assim, que não tava aguentando a fadiga. As nossa mulheres então piorou. A nossa mulher velha, a mais velha nossa, a minha sogra, ela queria dormir no corredor porque ela não aguentava ficar lá dentro. Aí, com muito custo as mulheres ficavam lá fora conversando com você, deixavam ir acostumando, mas só dorme com a porta aberta, não tranca a porta não. E hoje as nossas mulheres gostam do apartamento, não gostam mais da barraca

Ah, eu vivo dos dois, mulher. Eu gosto da liberdade da barraca, coisa que nós não tem no apartamento. Nem em festa, nem nada, aqui, a gente não tem essa liberdade. Mas aqui é bom o conforto pros meu filho, que tem chuveiro quente. Na época de chuva braba, eles já tem um lugarzinho quietinho, certinho, sendo que na barraca já é chuva braba, a cama armadinha pro lado de fora, os meninos só gostam de andar pelado, entendeu? Gosta de andar livre. E aqui já tem essa liberdade tipo assim, não tem lama, não tem nada, tudo limpinho, certinho. E nossas mulheres já gostaram, tá bom. Mas na barraca é melhor a liberdade, até pra gente fazer essa farrinha é melhor, fazer aquela nossa bagunça, comer carne assada, ligar o som alto, chamar parente. E aqui já não tem essa liberdade. Primeiro, que nem cabe, se eu tiver uma festa cigana aqui não posso chamar porque não cabe ninguém. Aí, nós temos que ir pra um terreno em tal lugar, lugar, lugar pra poder fazer a festa. Mas é gostoso o predinho, não tem o que reclamar, não. A vida dos garron é boa também, não é ruim, não. Aí, nós tamos meio cigano, meio garron, meio os dois.

Ah legal [contar a minha história], porque assim já abre os caminhos, né? Já vê que cigano não é aquele bicho que os outros pensam, não é aquele maloqueiro, aquele ladrão. Já vê que é uma pessoa normal, igual a vocês. Só por causa da roupa, por causa do cabelo, por causa do chapéu, por causa dos vestidos bonitos das mulher. Esse povo tem muito medo, porque vai muito pela aparência. Hoje tu vai na cadeia, tu vai ver lá, tu pode contar quantos ciganos tem na cadeia? Vê lá quantos brasileiros já tem? Você tem que ver isso também. Tu vê lá na cadeia, tem muito brasileiro, mas é muito raro ver um cigano, estrupador cigano, não sei o quê. Você vê, esse povo discrimina nós sem... Só por aparência. E tem cara que anda que nem advogado aí, tu vai ver a ficha dele, é pior que de todo mundo aí. Então, é bom que conversa assim que já esclarece, pessoal vê que cigano não é aquele bicho que todo mundo pensa, aqueles modo antigo que cigano rouba criança. Hoje nós falamos pro nosso filho também: “Vai lá não, porque os outros te rouba”, entendeu? A mesma história que fala pra gente, a gente fala pras criança.

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